A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma tecnologia setorial para se tornar uma infraestrutura crítica, enquanto a concentração global de dados, capacidade computacional e modelos de IA começa a redesenhar as relações de poder entre países. Essas são duas das principais conclusões do novo artigo “Soberania tecnológica em disputa – As respostas globais à concentração de dados, compute e IA”, que integra o quarto caderno da série Observando, do Observatório Softex, unidade de pesquisa e inteligência estratégica da entidade voltada à produção de conhecimento e ao apoio à formulação de políticas públicas.
A publicação analisa a soberania em IA a partir de quatro dimensões: dados, capacidade computacional, modelos e governança. Nesse contexto, soberania é definida como a capacidade de um país desenvolver inteligência artificial com infraestrutura, dados, profissionais e empresas próprias. O desafio, segundo o estudo, está em definir em quais dessas áreas é estratégico buscar autonomia e em quais a dependência externa pode ser administrada.
Os números mostram o grau de concentração da infraestrutura digital. No quarto trimestre de 2025, apenas três hyperscalers, grandes provedores globais de computação em nuvem, concentravam 63% desse mercado. Na infraestrutura computacional especializada em IA, os Estados Unidos reuniam cerca de 74% da capacidade global de supercomputadores dedicados à tecnologia, ante 4,8% da Europa. Para o estudo, essa assimetria amplia os riscos para países dependentes de infraestrutura e modelos estrangeiros.
O artigo compara diferentes estratégias nacionais. A União Europeia recorre à regulação como um dos instrumentos para ampliar sua soberania tecnológica; a China aposta em autossuficiência via planejamento estatal; e os Estados Unidos concentram capital privado, talentos e infraestrutura. Índia, Canadá e países do Golfo Pérsico, por sua vez, adotam modelos híbridos, combinando dados locais, formação de profissionais e investimentos para desenvolver capacidade própria em IA.
A disputa por infraestrutura de IA também passa pela disponibilidade de energia, diante do crescimento do consumo dos data centers. Nesse cenário, o Brasil reúne uma condição relevante: mais de 88% de sua matriz elétrica é renovável. Segundo a análise, essa característica pode contribuir para a instalação de infraestrutura computacional e para uma estratégia de maior autonomia digital do país.
A íntegra deste quarto caderno está disponível para download gratuito aqui.
Por Mário Pereira
Agência Softex