Energia renovável, dados estratégicos e produção científica colocam o Brasil em posição favorável na corrida global pela inteligência artificial. O país, porém, ainda enfrenta gargalos em capacidade computacional, financiamento e dependência de infraestrutura estrangeira. A análise integra o quinto volume da série Observando, do Observatório Softex. Intitulado “Capacidade brasileira em IA: os ativos que o país tem e os gargalos que podem travar a autonomia”, o conteúdo examina o papel da energia, dos dados e da ciência, além dos desafios que condicionam a posição brasileira na era da IA.
A energia aparece como uma das principais vantagens brasileiras. Em 2024, 88,2% da eletricidade gerada no país veio de fontes renováveis, percentual superior à média global. Essa característica, considerada no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024–2028), também está relacionada a investimentos anunciados por empresas como Microsoft e Amazon Web Services (AWS). O levantamento cita ainda a sanção da Lei nº 15.504/2026, que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (REDATA) , com incentivos associados, entre outros requisitos, ao uso de energia limpa e a investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil.
Outro ativo identificado pelo artigo são as bases de dados produzidas por instituições como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Esses acervos reúnem informações sobre características territoriais, climáticas, sociais e epidemiológicas brasileiras pouco representadas em bases internacionais. No Índice de Dados Governamentais Abertos, Úteis e Reutilizáveis (OURdata), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil alcançou índice de 0,70 e a oitava posição global.
Muitas vantagens e muitos gargalos
A capacidade científica é outro ponto destacado. “O Brasil dispõe de vantagens objetivas, como a matriz elétrica majoritariamente renovável, acervos públicos de dados de grande relevância estratégica e uma base científica consolidada”, explica Rayanny Nunes, coordenadora de Inteligência e Design de Soluções da Softex. Segundo o conteúdo do Observatório, o país ocupa a 15ª posição mundial em produção científica em IA e lidera a América Latina. Em 2025, registrou 11,1 mil autores e inventores de elite na área, ficando entre as dez maiores bases globais. A publicação também identifica 144 unidades de pesquisa dedicadas ao tema, concentradas principalmente no Sudeste e no Nordeste.
As vantagens, porém, convivem com gargalos. O Observatório Softex aponta capacidade computacional insuficiente, dependência de provedores estrangeiros de nuvem, limitações nos instrumentos de financiamento e baixa densidade empresarial em áreas críticas da cadeia de IA. Como referência, o novo caderno cita estratégias adotadas por países como Canadá, que investe em capacidade computacional soberana, e Índia, que combina sua diversidade linguística com investimentos em infraestrutura.
A conclusão é que o Brasil dispõe de parte dos recursos necessários para ampliar sua autonomia em IA, mas ainda precisa transformar essas condições em capacidade tecnológica. Energia renovável, dados, pesquisa científica e um ambiente regulatório em construção formam a base desse processo. Para o estudo, avançar dependerá de coordenação institucional, investimentos direcionados e políticas de longo prazo capazes de enfrentar as lacunas de infraestrutura e reduzir dependências externas.
Para acessar gratuitamente a íntegra do Caderno 5, acesse https://observatorio.softex.br/artigos/
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