A inteligência artificial ocupa um espaço central nas estratégias corporativas, mas sua adoção acelerada amplia a distância entre oportunidades, riscos e capacidade de governança. Nesta segunda-feira (19), na abertura do Gartner IT Symposium/Xpo™ 2026, em Orlando, os analistas Kristin Moyer e Daryl Plummer destacaram que os gastos empresariais com IA cresceram 18 vezes em dois anos. Ao mesmo tempo, 86% dos chief information officers (CIOs) afirmam que os riscos avançam mais rapidamente que o valor gerado, e somente 25% conseguiram equilibrar essas duas dimensões.
Para explicar esse descompasso, os analistas apresentaram o Value-Risk Flywheel, modelo formado por duas engrenagens: uma representa a geração de valor; a outra, a exposição a riscos. Apenas um em cada cinco projetos de IA alcança sucesso, embora 58% dos executivos relatem retorno positivo sobre o investimento, geralmente concentrado em poucas iniciativas. No desenvolvimento de software, os ganhos médios de produtividade variam de 20% a 25%. A recomendação é substituir a multiplicação indiscriminada de aplicações por investimentos direcionados a projetos com impacto comprovado.
A expansão dos agentes autônomos acrescenta uma nova camada de risco. Shadow AI é o uso de ferramentas de inteligência artificial sem autorização ou supervisão da empresa. Já Dark AI abrange sistemas empregados de forma maliciosa ou que provocam danos por comportamento inesperado. Entre os casos apresentados estava o de um agente de atendimento manipulado para autorizar 340 reembolsos fraudulentos, somando US$ 1,2 milhão. Para reduzir a exposição, os analistas recomendaram monitorar ferramentas não autorizadas, limitar permissões, registrar as ações dos agentes e utilizar guardian agents para supervisionar outros sistemas. A urgência aumenta porque 71% dos CIOs pretendem adotar IA agêntica nos próximos 12 meses, mas somente 21% possuem estruturas de governança preparadas.
A resposta proposta é o Flywheel Governor, uma camada de coordenação baseada em cinco dimensões: responsabilização, tecnologia, economia, inteligência e pessoas. O modelo inclui uma trilha digital capaz de registrar decisões e preservar evidências, inclusive diante de riscos cuja existência é conhecida, mas cujos efeitos ainda são incertos. A governança pode ter liderança rotativa entre o CIO e o diretor financeiro (CFO), com participação das áreas de segurança, jurídica e de conformidade.
Mais IA não significa mais valor
O Gartner também recomenda equipes preparadas para interromper agentes, revogar acessos e reverter operações. Em um dos episódios apresentados, um agente apagou um banco de dados de produção e seus backups em nove segundos. Embora 34% dos CIOs considerem contratar seguro de responsabilidade civil para IA, apenas 1% já adotou essa proteção.
A arquitetura de IA deve reduzir a dependência de fornecedores e controlar custos. Recursos como AI Gateway, superagentes e modelos temporários ampliam a flexibilidade; na AT&T, essa estratégia reduziu em até 90% os custos de determinadas aplicações.
Os maiores ganhos também dependem do redesenho do trabalho. A IKEA realocou 8.500 profissionais após adotar chatbots, enquanto a polícia de Calgary capacitou agentes para criar soluções próprias. Nesse cenário, ganham espaço os AI Artisans, profissionais que experimentam tecnologias e transformam problemas em aplicações práticas.
A AI Inflation pressiona os custos de processamento, energia e infraestrutura, enquanto os ganhos reais de produtividade ficam abaixo das promessas dos fornecedores. O Gartner recomenda práticas de AI FinOps para relacionar despesas a resultados e alerta para a criptografia pós-quântica: apenas 4% dos CISOs já iniciaram a implementação, e cada ano de atraso pode dobrar o custo da transição.
O recado central da abertura foi direto: o avanço da IA será medido menos pela quantidade de ferramentas adotadas e mais pela capacidade de gerar valor com controle, transparência e responsabilização.
O Brasil marca presença no Gartner IT Symposium/Xpo™ 2026 pelo 21º ano consecutivo com uma delegação de 20 empresas em mais uma iniciativa do Brasil IT+, projeto setorial desenvolvido pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) em parceria com a Softex.
Confira os cinco principais insights
- Valor antes de escala: ampliar o número de aplicações não garante retorno. Recursos devem ser concentrados nos projetos que apresentem impacto mensurável.
- Agentes exigem governança própria: permissões, decisões e operações precisam ser rastreadas para permitir intervenção e responsabilização.
- Arquiteturas flexíveis reduzem custos: AI Gateways, superagentes e modelos temporários ajudam a evitar dependência tecnológica e desperdício de infraestrutura.
- A IA deve redesenhar o trabalho: os maiores ganhos surgem quando processos são revistos e profissionais recebem autonomia para experimentar e criar soluções.
- Os riscos futuros começam agora: Shadow AI, Dark AI, inflação de custos e ameaças à criptografia exigem monitoramento, equipes de resposta e preparação antecipada.
Por Karen Kornilovicz
Agência Softex