Em 1843, a matemática inglesa Ada Lovelace escreveu o que é considerado o primeiro algoritmo destinado ao processamento por uma máquina. Por esse trabalho, é frequentemente reconhecida como a primeira programadora da história.
Quase dois séculos depois, mulheres continuam expandindo as fronteiras da computação. Algoritmos, inteligência artificial e ciência de dados passaram a integrar os esforços para enfrentar um dos maiores desafios da medicina: aprimorar a prevenção, a detecção e o tratamento do câncer.
No mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, vale conhecer algumas pesquisadoras brasileiras que, com muita dedicação e empenho, aproximam esses dois campos. Seus trabalhos mostram como a tecnologia pode ajudar a identificar sinais da doença, estimar riscos de recorrência, apoiar decisões médicas e aperfeiçoar o estudo de novos tratamentos.
Prever a recidiva para personalizar o cuidado
A Dra. Mariana Zuliani Theodoro de Lima é cofundadora e CEO da OncoAI, deeptech que desenvolve inteligência artificial para prever o risco de recidiva dos cânceres de mama e pulmão. A startup participou do IA² MCTI, iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação executada pela Softex, que contribuiu para o amadurecimento dos modelos preditivos e o avanço tecnológico do projeto.
A solução combina dados clínicos e imagens médicas para estimar a probabilidade de retorno da doença. O objetivo é transformar essas informações em subsídios para a tomada de decisão médica e para um acompanhamento mais preciso e personalizado dos pacientes.
Identificar sinais do câncer no sangue
A Dra. Daniella Castro Araújo, co-founder e CTO da Huna, trabalha em outra frente: o uso de aprendizado de máquina para encontrar, em exames de sangue de rotina, padrões associados ao câncer de mama.
A deeptech torna a detecção precoce do câncer mais acessível aproveitando o poder dos exames de sangue de rotina com inteligência artificial de ponta. Os modelos computacionais podem ajudar a identificar mulheres que precisam de uma investigação mais detalhada, abrindo caminho para o uso da inteligência artificial como ferramenta complementar de avaliação de risco.
Dados para antecipar o risco de recorrência
Já no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e na Universidade de São Paulo (USP), a Dra. Luciana Rodrigues Carvalho Barros participa do desenvolvimento do BreastOncoPredict, um software de Inteligência Artificial (IA) capaz de prever o risco de recorrência ou morte de pacientes com câncer de mama a partir de dados clínicos e de um hemograma completo disponível ao diagnóstico.
A ferramenta poderá apoiar médicos na definição de condutas e no monitoramento da recidiva, direcionando o acompanhamento conforme o risco de cada paciente. Na saúde pública, poderá contribuir para a gestão de filas e a priorização de casos de maior risco, tornando o atendimento mais eficiente.
IA e bioimpressão 3D apoiam estudos de tratamentos
A pós-doutoranda Dra. Amanda Blanque Becceneri realiza, no Laboratório de Modelos Tumorais 3D (LMT3D) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP, uma pesquisa que combina inteligência artificial e bioimpressão 3D para desenvolver modelos tumorais de câncer de mama destinados ao estudo de tratamentos.
A proposta é reproduzir em laboratório estruturas semelhantes ao ambiente de um tumor e utilizar inteligência artificial para aumentar a precisão e a reprodutibilidade da bioimpressão. Esses modelos poderão contribuir para avaliar respostas a diferentes terapias e aperfeiçoar a investigação de novos tratamentos.
Neste Outubro Rosa, celebrar essas pesquisadoras reforça a importância de se investir para ampliar a presença das mulheres na ciência e na tecnologia. Ada Lovelace nos ajudou a imaginar o que as máquinas seriam capazes de fazer. Hoje, outras mulheres levam esse legado adiante, colocando a tecnologia a serviço da ciência e a ciência a serviço da vida.
Por Karen Kornilovicz
Agência Softex