A escalada global dos investimentos em inteligência artificial (IA), impulsionada sobretudo por infraestrutura e aplicações de alto impacto, cria um ambiente favorável para soluções que conectam ciência, tecnologia e mercado. É nesse contexto que surge a plataforma Bamboo, uma iniciativa brasileira que utiliza algoritmos de aprendizado de máquina para acelerar a etapa inicial da descoberta de novos medicamentos, reduzindo custos, tempo e incertezas no processo de pesquisa e desenvolvimento (P&D).
A Bamboo teve origem em um projeto de mestrado desenvolvido na Universidade Federal de Pelotas, voltado à criação de modelos preditivos para identificação de moléculas com potencial farmacológico. O foco inicial foi o melanoma, com posterior expansão para câncer de mama e outros tipos de doenças. A evolução do projeto levou à criação da Bamboo Enterprise, estruturada como startup para oferecer serviços a empresas farmacêuticas, com apoio do Programa IA² MCTI, uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) executada pela Softex com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Transformação Digital (Setad), e recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).
Da pesquisa acadêmica à aplicação no mercado
“A plataforma funciona como um filtro inteligente, capaz de analisar grandes volumes de dados e indicar quais moléculas merecem avançar para as próximas etapas de validação”, explica o Dr. Francisco Kremer, doutor em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas e coordenador do projeto Bambu Enterprise.
Ao atuar como etapa preliminar da pesquisa, a Bamboo contribui para aumentar a eficiência do desenvolvimento de medicamentos. A triagem computacional reduz de maneira significativa o número de testes laboratoriais necessários, impactando diretamente o custo e o prazo de P&D. Além disso, ao priorizar moléculas com maior probabilidade de sucesso, a plataforma eleva a taxa de acerto nas fases posteriores, como estudos pré-clínicos e ensaios clínicos, com benefícios diretos para o sistema de saúde e para a sociedade.
Muito aprendizado e novas frentes de inovação
O amadurecimento da Bamboo esteve diretamente ligado ao processo de aceleração no Programa IA² MCTI, que estimulou a transição de uma abordagem acadêmica para uma visão orientada ao mercado. Durante esse percurso, a equipe desenvolveu a ferramenta Mapel, voltada à extração automatizada de dados da literatura científica, reduzindo o tempo dedicado a revisões manuais. A apresentação conjunta das soluções resultou no primeiro contrato da startup, com adaptação da tecnologia às necessidades específicas de um cliente da área da saúde. “O programa foi decisivo para entendermos como transformar pesquisa em solução viável, com impacto real”, afirma o Dr. Francisco Kremer.
Entre os aprendizados, vale destacar a compreensão das particularidades do mercado brasileiro de medicamentos, marcado por altos custos regulatórios. Esse diagnóstico levou à exploração de aplicações alternativas, como a saúde veterinária, que demanda tecnologias semelhantes e apresenta um ambiente regulatório distinto. A lógica de inovação aberta também se consolidou, permitindo que a Bamboo mantivesse foco em código aberto e na geração de novas soluções a partir do ambiente de pesquisa.
Olhando para o futuro, a plataforma planeja expandir sua atuação para doenças tropicais negligenciadas, como malária e doença de Chagas, áreas com grande impacto social e linhas específicas de financiamento. O Mapel seguirá em desenvolvimento, incorporando modelos mais avançados de IA e ampliando o cruzamento de dados científicos. A startup, que já passou de um para três sócios, projeta para o futuro um crescimento nacional e também internacional, mantendo a estratégia de inovação aberta como eixo central.
Por Karen Kornilovicz
Agência Softex