Síndrome do impostor reduz a permanência de mulheres na tecnologia, aponta pesquisa

A síndrome do impostor tem se consolidado como um fator relevante de exclusão feminina no setor de tecnologia. Trata-se de fenômeno psicológico em que profissionais competentes duvidam de suas próprias habilidades, atribuem conquistas à sorte ou a fatores externos e temem ser expostos como incapazes, apesar de evidências objetivas de desempenho.

Um estudo da iCIMS, empresa com foco em soluções em recursos humanos, indica que 40% das mulheres que atuam na área relatam se sentir inadequadas ou subqualificadas, percepção que acaba afastando essas profissionais do setor e impactando diretamente a diversidade na tecnologia e inovação digital.

O levantamento aponta que muitas mulheres deixam de buscar vagas em tecnologia por acreditarem não ter competências suficientes, mesmo quando possuem formação ou experiência compatíveis. Esse fenômeno preocupa especialmente em segmentos emergentes, como a Inteligência Artificial (IA), onde desigualdades estruturais tendem a se reproduzir desde as fases iniciais de adoção tecnológica. Segundo os dados, 23% das mulheres dizem não se sentir preparadas para mudanças impulsionadas por IA, frente a 17% dos homens.


Interesse feminino pela área segue em crescimento

A diferença também aparece na percepção de preparo profissional. Enquanto 27% dos homens afirmam estar confiantes para se adaptar à IA, apenas 14% das mulheres compartilham dessa avaliação. Além disso, elas relatam menor engajamento em processos de requalificação: 40% não têm planos de capacitação em IA, proporção superior à observada entre os homens (29%). Apenas 10% das mulheres consideram o domínio de IA essencial para conseguir emprego no cenário atual, ante 18% dos homens.

Apesar dessas barreiras, o estudo aponta um dado positivo: o interesse feminino pela área segue em crescimento. O número de candidaturas de mulheres a vagas em tecnologia aumentou 27% em um ano, indicando que, embora o ambiente seja desafiador, a busca por oportunidades no setor permanece ativa. Ainda assim, relatórios internacionais mostram que a desigualdade avança lentamente e que a presença feminina continua concentrada fora das funções técnicas mais estratégicas.

No Brasil, apenas 19,2% dos especialistas em TI são mulheres

A realidade brasileira reflete o cenário global de desigualdade de gênero na tecnologia. A quarta edição do estudo W-Tech, do Observatório Softex, unidade de pesquisa e inteligência estratégica voltada ao apoio à formulação de políticas públicas em Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), mostra que as mulheres representam apenas 19,2% das especialistas em Tecnologia da Informação (TI) no país: cerca de 89,7 mil profissionais entre quase 470 mil em atividade. Apesar de corresponderem a mais da metade da população e a 44,7% dos vínculos formais de trabalho, seguem sub-representadas em funções técnicas e estratégicas da economia digital.

A desigualdade começa na formação e se aprofunda ao longo da carreira. Apenas 17,8% dos concluintes de cursos de TI são mulheres, avanço modesto em dez anos. Mesmo com maior escolaridade média, elas recebem 19,3% menos que os homens, diferença que aumenta em funções técnicas e nos cargos de liderança, onde ocupam apenas 26,2% das gerências e 13,1% das diretorias. O estudo aponta ainda recortes regionais e raciais significativos e estima que, mantido o ritmo atual, a paridade de gênero no setor só seria alcançada por volta de 2110.

Apesar do cenário desafiador, há sinais de mudança. As mulheres já representam 29,8% das concluintes em cursos de Inteligência Artificial, índice acima da média global, além de maior presença em áreas como cibersegurança e economia verde digital.

Foto: Freepik

Por Karen Kornilovicz
Agência Softex

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