O novo policy brief “Diretrizes Estratégicas para uma Inteligência Artificial Brasileira” produzido pela equipe de pesquisadores do Observatório Softex, unidade de pesquisa e inteligência estratégica da entidade voltada ao apoio na formulação de políticas públicas, identificou que o Brasil combina hoje crescimento acelerado na adoção de IA, evoluindo de 16,9% para 41,9% entre 2022 e 2024, acima da média da OCDE, e com desafios estruturais que definirão seu grau de autonomia tecnológica nos próximos anos. Apesar do avanço, o levantamento aponta que esse movimento ainda não se traduz plenamente em capacidade produtiva, em soberania computacional e em captura local de valor.
O documento mostra que o Brasil reúne ativos estratégicos relevantes: 198 data centers projetados para 2026, matriz elétrica 88,2% renovável, liderança regional em software e serviços de TIC e um ecossistema crescente de modelos de linguagem em português, com 38 modelos avançados (LLMs) desenvolvidos entre 2020 e 2024. Persistem, porém, gargalos críticos. Para 37% das empresas, a falta de especialistas em TI é a principal barreira à adoção de IA, enquanto 45% ainda operam sem política formal de segurança digital.
Nesse cenário, o Programa IA² MCTI e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024–2028) surgem como instrumentos centrais para fortalecer a capacidade nacional de inovação. O IA² MCTI acelerou 35 projetos em 20 cidades de 14 estados, com 85,7% de participação de startups e avanço expressivo em maturidade tecnológica: a média do nível de maturidade (TRL) passou de 3,46 para 6,46. Já o PBIA direciona R$ 1,15 bilhão para formação de talentos, pesquisa aplicada e infraestrutura crítica.
O documento alerta ainda para riscos associados à expansão de data centers operados por empresas globais, que podem transformar o país em mero hospedeiro de infraestrutura estrangeira. A recomendação é vincular incentivos como o REDATA a contrapartidas de P&D nacional, transferência tecnológica e regras de data residency para dados sensíveis.
Outro ponto crítico detectado é o trabalho. Embora 79% dos desenvolvedores já utilizem IA regularmente, a adoção é cautelosa em etapas estratégicas, indicando reorganização das funções em direção à supervisão e governança. O déficit de profissionais se agrava com evasão elevada em cursos de TIC, reforçando a necessidade de revisão curricular e aproximação com trajetórias reais de inovação.
O relatório conclui que o Brasil tem condições de transitar de usuário qualificado a produtor competitivo de IA, desde que integre infraestrutura soberana, base produtiva em chips e software, força de trabalho qualificada e marcos regulatórios robustos. A janela de oportunidade, porém, é estreita e tende a se consolidar nos próximos três a cinco anos.
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Por Mário Pereira
Agência Softex