O medo nem tão infundado que a IA desperta em nós

Tenho certeza de que você já ouviu muitas vezes que os robôs, a IA ou qualquer outra tecnologia vão tirar seu emprego, te substituir, ou até dominar o mundo. Será?

Quando eu era pequena, ficava deslumbrada com os Jetsons. Ter um carro voador e um robô para cuidar das tarefas da casa parecia um sonho. E, na verdade, esse imaginário ainda vive em muitos adultos e crianças. Só que já passamos da “época dos Jetsons” e continuamos com carros que andam nas ruas, ainda que agora muitos sejam elétricos e alguns até autônomos.

Quanto aos robôs domésticos, temos apenas versões limitadas: aspiradores de pó, limpadores de janela e cortadores de grama. Nada realmente humanoide ou multifuncional.

Mas isso também está começando a mudar. Pesquisas indicam que o primeiro robô humanoide multifuncional para limpeza doméstica deve ser lançado ainda em 2026, embora seja acessível a poucos, com preço estimado em cerca de US$ 20 mil, aproximadamente R$ 107 mil.

E é justamente aqui que entra a reflexão que quero propor: o medo recorrente que sentimos diante de cada novo ciclo tecnológico.

Toda grande mudança tecnológica segue um padrão bastante previsível. Surge uma inovação, que gera encantamento e promessa. Em seguida, aparecem resistência e medo, ligados à perda de controle, de empregos e de identidade. Depois, ocorre uma adaptação gradual. Por fim, aquilo se torna parte da normalidade, quase invisível.

Foi assim na Revolução Industrial, quando trabalhadores temiam ser substituídos pelas máquinas. Foi assim com a internet, cercada por medos de exposição e perda de privacidade. E é assim agora com a inteligência artificial, que desperta receios de irrelevância, erro e substituição criativa.

Na psicologia, esse padrão não é surpresa. Ele se conecta com mecanismos básicos do funcionamento humano: o viés do status quo, que nos faz preferir o que já conhecemos; a aversão à perda, que torna perder mais doloroso do que ganhar; a dificuldade em lidar com a incerteza, que o cérebro interpreta como risco; e a própria identidade, que pode se sentir ameaçada diante de mudanças.

Ou seja, a resistência não é exatamente racional, ela é protetiva.

A psicanálise aprofunda ainda mais essa leitura. O novo pode ser vivido como uma ruptura simbólica. Existe um apego ao familiar, mesmo quando ele não é ideal. Mudanças ativam ansiedade porque mexem com nosso senso de controle e previsibilidade. Freud já apontava a tendência à repetição: preferimos o conhecido ao desconhecido.

Em termos simples, não resistimos apenas à tecnologia, resistimos ao que ela representa internamente.

A neurociência ajuda a fechar esse ciclo de entendimento. Diante da mudança, a amígdala interpreta a incerteza como ameaça e ativa respostas de alerta. O córtex pré-frontal, responsável pela análise racional, perde eficiência sob estresse. Já o sistema de recompensa tende a favorecer padrões conhecidos, porque o novo exige mais energia e aprendizado.

Além disso, o cérebro funciona como uma “máquina de previsão”. Ele tenta constantemente antecipar o mundo ao seu redor. Quando algo quebra essas previsões, surge o desconforto.

Talvez a forma mais simples de integrar tudo isso seja: a tecnologia desafia, a neurociência reage, a psicologia descreve e a psicanálise interpreta.

A resistência à mudança, portanto, não é apenas cultural ou emocional, ela também é neural. Nosso cérebro foi moldado para preferir o previsível, não o possível.

No fim, entender esses mecanismos internos muda a forma como olhamos para a inovação. O medo da mudança não é fraqueza, é parte da nossa programação biológica. E toda nova tecnologia só se consolida quando deixamos de percebê-la como ameaça e passamos a integrá-la ao cotidiano.

Por Samara Valério, Co-CEO e CBO na Colbiz.SV. Especialista em construção de relacionamento e abertura de mercados, atua há mais de 20 anos no mercado de tecnologia. Formada em direito, com pós-graduação em Comunicação pela Escola Superior de Propaganda & Marketing (ESPM) e MBA em Transformação Digital pela FIAP. Mentora do “Elas Exportam” da ApexBrasil.

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